terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Lastro

Com calma eu sigo
Menos ingênuo e mais amigo
A alma expande e eu dou abrigo
Ao Rodrigo que hoje estou

E sou
Nada mais do que sobrou
Da última explosão

Quando de estrela eu fui ao chão
E como Adão da terra fui moldado
Feito homem e soldado

Feito herói e filho da puta

Apto a luta, pois só assim se há de ser quando a vida é incerta
Eu sigo sozinho - minha costela ferida aberta
E adiante a floresta é negra e densa

Mas quem pensa demais não entra e age pouco
Ou pior, vive em reação
Não deixa rastro, vive infeliz e acaba louco

Em autocombustão

Por isso eu sigo
De peito aberto e espada em punho -
Minha moeda eu cunho -
Que minha vida sirva de lastro

E que se agregue o valor devido
A cada dor sentida
A cada coração apunhalado
Por uma promessa não cumprida

Eu sigo sereno e quando o dia vira noite e o ar se torna ameno
Eu paro por um lamento, pois sou humano e há momento para tudo
E é preciso beber água para que a mágoa não me consuma

Para que a mágoa não me Criciúma

E é quando,

Eu sento ao lado de meu inimigo
E lhe digo que sinto não por remorso
Mas sim por compaixão

Só assim posso seguir em frente
Mente a si mesmo quem oscila entre o ódio e a culpa
É no sentir a dor alheia que reside a sanidade
Não importa a idade a sanidade é atemporal

E eu sigo calmo, entre o bem e o mal
Transito livremente porque estou leve sei que a vida
É breve
Demais

Para que eu me perca ou me esconda ou atole
Água mole em pedra dura; por hora
Antes que fure
Evapora

E assim eu sei que talvez não seja nessa vida
Que eu receba compreensão ou os louros
Que já nem sei se quero mais

Talvez eu morra sem que encontre a minha paz
E o que eu deixe seja mera fotografia de uma luta
E talvez essa fotografia pareça um tanto insana

A verdade expõe - por definição - a tragédia humana
E que valha a pena tamanha exposição

Que eu conte história ou até inspire reflexão
Depois que eu expire e volte a terra e o vento leve
Num mesmo sopro que me criou

A vida é breve e a alma cresce e dá abrigo a quem eu amo
E ao que sou

Um Rodrigo que é mais que a soma de suas partes
Mais que o jogo de suas sortes
Mais que o mosaico de suas artes


Rodrigo Barata 01/dez 09

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Aconteceu no último, em 2008

O sol queimava resquícios de um ano e a cidade vazia e o lixo do natal. Um garoto limpava a rua, insuspeito da própria resignação. Veio o carro, negro e novo. Dentro dele, ela, inimiga do povo. A mulher, no volante e com a mão na buzina. O corpo humano, feminino limitando dentro de si um universo de frustrações. No último dia do ano, a mulher, ao volante, não enxergou no garoto um humano, e buzinou uma incoerência que me doeu os ouvidos, exigindo que o garoto retirasse o lixo de seu caminho, para que ela pudesse estacionar.

Pobre mulher, que sem pensar deve ter se assustado ao se dar conta de sua pequeneza. Dentro do carro se sentindo realeza ouviu de mim o insulto bem colocado, lhe pondo nua no meio da rua, com seus quilos a mais de educação pequeno burguesa.

Aprendamos Brasil, a viver em sinergia. Aprendamos Brasil que a verdadeira alegria consiste na compaixão. De carnavais, Brasil, não se constrói uma Nação.

Criciúma, 31 de dezembro de 2008.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Hangover 9am

Eu escuto eu vejo eu mastigo
Cuspo o que não digiro
Vomito quando tudo é demais
E então me coloco de castigo

Acordo com sede doído cheirando parede

E é quando tudo fica chato e sem graça e
Eu perco a graça na frente do espelho
Eu perco a vontade na frente do espelho
E eu perco a fé

Mas então yeah yeah yeah,

Por milagrosa insistência
Eu acordo por decisão
E ser passa ser questão

crucial

Eu metade ar metade animal
Um pouco de tudo o que há por aí
Volto à cena

Sorrindo a quem me quer mal
Sorrindo a quem eu traí
Um pouco mais morto afinal

Eu volto à cena
Levando, sendo levado

Na espiral que me ilude
Por fazer parecer tudo tão igual
Tudo de novo

Quando nada acontece de novo
Nada se encerra

E eu sinceramente desconfio
Que saberemos jamais
Quem ganhou a batalha ou quem venceu a guerra

O que fazemos na Terra
Ou o que a Terra faz,

O que a Terra deseja e se ela planeja.
O que jaz na terra.
E onde é que a Terra jaz.

domingo, 12 de julho de 2009

oblivio accebit

E às vezes parece o fim estar perto
E o mundo implica em que se largue tudo e se comece
Tudo de novo
Como se o fim gerasse o novo

Ler um livro novo
Começar um´outra banda
E a menina que espera na esquina adiante

Nada que adiante

E o povo derrama gasolina
Na fogueira
E a epidemia de cegueira contamina

Não nego - sou cego - e eu pago para ver
Às vezes caro demais

São Tomé perdendo contato
com a realidade

Talvez a idade atrapalhe e de fato esteja perdendo a visão
Por miopia, astigmatismo, ou por cansaço

Eu carne
Eu não aço
Eu stigmato

Sigo
Pelo calor do tato
Errando um pouco em cada ato

Até por fim
Errar de fato

E eu sigo,
Vivendo por supor

E às vezes o fim parece estar certo
E dói o futuro ser incerto
Dói a ferida ainda aberta

Dói ter que acreditar
E ter que esperar
O sol nascer

Dgo.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Porra Caralho!

Porra Caralho!
Se eu for colocar agora aqui na mesa o quanto eu valho
Ou eu não valho
Eu desisto ante essa falta de propósito toda

Eu digo - Que se foda!

E então que não valha nem o dia de ontem nem o dia de antemão
Que não valha o que o cérebro conceba
Mesmo que ele conceba
Um coração

E se a menina que eu não sei se é ou não é não
Sumiu e me deixou com essa dúvida
E qualquer outra dívida
Na mão

Ela não se saiba tão mulher
Nem seja tanto mais do que puder
Ser até ser de fato

Então...

Drigo

domingo, 17 de agosto de 2008

Rocket Boy

O menino estourou pela porta do carro
Cambaleou
Tropeçou
Mas não caiu

Ele riu mais do que todo mundo
Eu não ri, mas sorri orgulhoso

Ao ver o menino tropeçando

Pois tropeçar é preciso
E dizer “não”
É preciso dizer não

À precisão do passo
À falsa segurança que sequer nos livra
Do despudor do embaraço


E ninguém soube e nem jamais saberá
Que menino estava feliz
Talvez por saber que por um triz
Recuperou o passo
Desafiou o compasso e

Fez aquilo que faz o ser humano ao ser humano
Dizendo não a quem exige compreensão
-quem berra, perde a questão

Dizendo não assim
Ao terrorismo da razão
Fazendo compreender
O menino fez a si compreendido

Só isso faz sentido para quem vive a favor da vida

E eu sei que ele há de acordar por dias, infeliz,
E dolorido
Eu também hei, haveremos todos

Mas que saiba o menino e que eu não me esqueça
Que a vida recompensa
Quem faz ou quem fez
De acordo com o que se pensa

Quem respeita as estações
Quem não repete orações

Viver é uma forma de oração

Quando se permite tropeçar
Quando se aprende a dizer sim ao sim
E não ao não

Eu vi o menino estourando pela porta do carro
Na contramão
Se colocando ao quase-cair em sintonia com o que o universo conspirou

O que o viver de cada um acumulou
Até virar a sabedoria que se tangencia
Entre o anoitecer
E o raiar de um novo dia

E que se coloca disponível a quem se permite sonhar
A quem se permite não estar sempre tão certo
A quem respeita o incerto e entende que nem tudo é o que parece

Nem tudo o que sobe desce

Quem se atreve
A desafiar a gravidade

Sabe e entende
O que é ser leve

E que o menino releve e compreenda que sim de fato faz sentido
Sonhar acordado
Ser meio tarado e viver por um triz

Infeliz quem não espera que a vida o desafie
Naquilo que cegamente confie
Naquilo que sonhou
Naquilo que quis

( Que esse poema sirva a quem o destino enfiou a faca da desilusão na garganta)

Drigo

All I know is that I know nothing

E então
Eu páro e meus olhos fitam
Em busca de compreensão

E de tanto fitar se cansam a saber que,

Mais que meu querer
Mais do que entender
O que se fez
Ou não se fez

Ao completar-se um ano

Importa ser
Mais oceano
E aceitar-se errático
Por mais que eu me perceba

Matemático,

Eu aceito por fim
O inesperado, o acidental
E o poder subliminal
Da imaginação


Quem espera resposta ao calcular
Esquece-se de respirar e não se dá conta que

A matemática é mera linguagem
Imagem do verdadeiro, mas...
Não oferece solução

E o que importa na verdade
É que a falta de compreensão
Faz-me e faz a ti
Mais sãos.

E à cada peça que clama por outra peça
Para que encaixe

Eu digo não

E eu reconheço que isso incomoda e quase peço que me esqueçam
Pois me faz assim mais suportável esse cansaço
Eu que sou carne e não sou aço

Tanto penso
Tão pouco faço

Mas eu não me encaixo mesmo,
Eu sigo sendo
Ladeira abaixo
Por gravidade

F=m.a


Na física de quem raciocina

Como se a esquina
Oferecesse
A resposta

Como se a menina
Oferecesse
A resposta

Como se perguntar garantisse
Exata explicação

Eu digo de antemão
Que não há
Explicação

Por que se ama um homem
Ou uma mulher e o porquê
Da supremacia ocidental
Do garfo e faca

Sobre a colher

A compreensão é uma utopia
A alma humana é vagabunda e vadia
E aleatória

E a história uma invenção
Diz-se e se escreve o que se quer
E no fim ninguém entende
Por que se insiste
Na dor
Que contagia

Sofre tanto o filho da puta
Que a dor imputa
Quanto quem em busca de sentido

Dói na luta
Ao ser infligido

A dor gera sanidade
E a idade
Humana ou sobre-humana
Encaminha-nos

Na busca por verdade
Obvia a maldade em quem serve ao ego

A luz que não estimula no cego a visão

Lhe acalenta
O coração

Um conforto que transcende a compreensão
Faz-lhe intuir

Mais do que nós que vemos e,
Que por não ser esse poema em Braille

Aqui o lemos

Desatando os nós
Que uma vez desatados
Transformam-se

Em novos nós.
E faz-nos de tanto amor, desejo e inteligência.

Montes de pó em pró

Da angústia de uma ciência
Que tão pouco entende


E eu
Que pareço um louco
Ao admitir

Que sou tão pouco

Que sei tão pouco.

Me calo e deixo o sol nascer
O galo cantar
E o dia acontecer


Drigo

















sábado, 2 de agosto de 2008

Dois de Agosto, Dois Mil e Oito, que foi assim.

O dia serenou quando meu pai chamou
E disse: Filho vamos tomar um pouco de sol
Teu coração aflito já levou pito e segurou o grito
Já desejou demais neste quarto escuro
Nessa tela de computador

Vamos para a rua
O sol segue brilhando e a lua
Vai refletir do mesmo jeito
Quer te aflijas
Quer não

Meu pai é um amigo que tenho
Meu pai é empenho em me amar
Meu pai serenou o meu coração
Num dia de cão
Que agora já parece até agradável

Eu tão pouco sociável
Há dias não sentia que a cidade
Ia acontecendo com a mesma indiferença
A cidade é uma fotografia

Quando você acha o sentido
Ela já não faz sentido
Quando tanto é dito por tanta gente
E tanto é mentido ou assumido como verdade
Fica difícil não generalizar e banalizar e marginalizar
Há de se justificar a cidade afinal

E tanto sentimento é oprimido por preguiça
De elaborar um pouco mais
Afim de que não se deixe pra trás
A chance de acontecer

E a vida não é só tristeza nem e só alegria
A vida se faz tropeçando
Parando
Recomeçando ao meio dia
Às três da tarde
Recomeçando por ordem das nuances, dos sorrisos inesperados
Recomeçando pois só a morte encerra
E a vida berra por redimir um dia de cão

Ainda que tardia
A vida clama por redenção

Minha sobrinha coroou a redenção deste dia
Ao me olhar um sorriso
Que sorri quem sabe que só o amor cria
Ela ama
Simplesmente ama e

Ela tem que crescer e ocupar espaço e para tanto
Seu instrumento é o amor
O seu desejo é amar

E agora o sol vai se por e a mente começa a divagar eu sou uma prece
A cortina desce
E é quando escurece que vejo
O quanto se quis

De tanto desejar eu me tornei desejo
Um beijo frustrado
Que agora
Neste momento sereno

Encontra a alegria em ouvir a menina aprendendo a falar
Ao saber-se possível
Perdoar
E se perdoar

Ao entender que o desejar não é assim tão ruim
O desejo ensina a amar
E a paciência com quem acha que pode mandar no dia ...
Há de haver paciência com quem pensa assim

E há de se saber que no fim das contas
Cada um com a sua razão

Mais vale um coração sereno
E a imensurável gratidão
A um pai que se chama devoção
E a um amigo que me deu a mão e cuidou do plano que não vai esvair
A uma criança que me impede de ir
A uma mãe que ama e supera tanta certeza
Transcende a razão que lhe é tão cara
Por que sente
Que a vida não pára
Que a harmonia é lapidada
Como uma jóia rara
Com muita aceitação
Com boa vontade
Com a serenidade que é um tapa de luva na cara de quem grita e exige explicação
Quem não corrompe o coração por medo ou vaidade
Recupera a paz, mantém a dignidade
E cala a boca suja da cidade que é uma entidade egocêntrica
Que por tanto demandar a coerência que lhe confere efêmero sentido
Acaba não respeitando ninguém.

Drigo

segunda-feira, 2 de junho de 2008

O Paradoxo do Perfeito

Um poema perfeito
Há de ser rápido
Cuspido ou vomitado
Deve ser doado ao mundo de qualquer jeito

Sem preconceito e sem conceito
Deve lidar com o abstrato como fato
O poeta literato
Deve ficar quieto quando lhe perguntam o “porquê” do que escreve

Deve abrir mão de fazer sentido
E deve orar a um deus que lhe permita
Jamais tocar o chão

O poeta verdadeiro
Deve queimar por inteiro
Pois poesia é combustão
Que é mais do que destino
É a nossa salvação

E acima de tudo há de se saber
Que o poema é o poeta
E que a perfeição é um conceito
Inatingível

Que o amor é ilegível
Que transcender é essencial
Que o que vemos é mundano

E que não há genes conhecidos
Para o espírito humano

Drigo

sábado, 31 de maio de 2008

Caterpillar

Passei um tempo hibernando
Estive imaginando, sonhando com uma certeza
Que contraria a natureza

Apontando os erros do mundo
Não enxergando a beleza que reside
No não saber, no querer pouco e no pouco supor

Mas eu que sou impulsivo
Construí de novo um casulo pra tentar me recompor.

E again.
Eu me tornei refém
De minhas crenças e meus objetivos

De tanto querer mudar o mundo me vi cativo e impregnado
Por uma ilusão que me serviu de chão
Eu que desde cedo tive a impressão de que

A fantasia era uma coisa boa

Mas quando me tiraram o chão tive medo
Medo de que você tivesse se perdido de mim nesse tempo
De que não tivesses entendido
A minha reclusão

E então
Veio o medo maior

Um medo pior, pungente e preciso
O pânico de narciso
Ao não se reconhecer

Na frente do espelho

Mas o sol se pôs e quando o azul virou vermelho
E o vermelho escureceu e eu enxerguei o primeiro ponto
Brilhante no céu eu soube

Estar pronto para estar errado

E agora parto
Em tua procura.

Temeroso dos teus ares.
Querendo-te ao meu lado e eu

Espero uma recepção de amor, como o que hibernou comigo.
Espero que eu não tenha sem querer rasgado pedaços e pedaços do teu coração.

Rezo por isso.
Rezo do meu jeito.
Imperfeito.
E imperfeitamente refeito eu espero,

Que você tenha rodeado meu casulo, desejando ardentemente minha saída e nosso encontro.

Drigo

sábado, 24 de maio de 2008

Luau em Ocean Beach, 2am

Será assim tão fútil querer ser genial
Serão irreais os ideais de um homem como eu que
Por motivação subjacente tenta
Afastar-se de um sofrimento que sente

E a cada dia
Eu anseio por voar
Olhando para um céu que só deus, dizem
Pode tocar e eu disse a deus que perdi as minhas asas
No ventre de minha mãe e em sonhos e orações

E em tardes bêbadas e noites
Que mal posso lembrar
Eu pedi a deus que devolvesse as minhas asas
Pois meus braços estão cansados

E um dia
Eu e meus amigos estávamos
Batendo nossos braços
Tentando voar
Cansados
De tanto ejetar
Latas de cervejas de nossas mãos

Ao cosmo

Tentando voar
Tentando tocar deus e o céu e com tamanha religiosidade
Quem precisa de igreja?

Falando em línguas tão claras e óbvias sentindo-nos mais vivos
Mais do que nós mesmos
E por fim vomitando tanta vida sobre a calçada dura

Tentando conhecer deus
O universo tentando conhecer deus
Enquanto matamos uns aos outros e a nós mesmos

Até que nossas asas finalmente se abram
E nos tornemos mais do que humanos
Pois ser humano não basta
Não basta quando eu olho para as estrelas e penso deus

Tudo o que eu queria
Era ser
Teu astronauta

Drigo

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Ao mal e ao bem que a Califórnia me fez

Eu espero pelo frio tudo o que eu quero é voltar pra casa
E eu digo isso por que eu não agüento mais ligar a cobrar pra dizer
Que todo mundo morre um pouco no decorrer de cada dia

E um outro pouco
A cada anoitecer

Morre sozinho,
Quase sem querer

E eu sei que cada chance de ter caído fora
Foi uma chance jogada fora
Eu espero pelo frio e eu pago para não sofrer
Eu pago sem querer

Eu não quero o que não seja meu, mas tudo bem
O merecer não é algo que eu queira discutir
Prefiro não merecer e partir

Eu tenho essa qualidade quase nada rara hoje em dia
De perder o controle e de apagar o que eu não quero
Na minha memória
De saber demais de história
Sem se dar conta
De que a história quem faz

Somos eu e você

E minha mente ainda está presa
Por sorte ou falta dela
No oeste da América do Norte
Presa demais

Ao mal e ao bem que a Califórnia me fez
a ainda e me faz

E a um passado que me traz a vontade a tona
Me faz querer a volta
Uma vontade que não me deixa em paz

E certa revolta ao perceber que
Eu sou diferente demais do viver desta cidade

Talvez eu devesse agir mais de acordo
Com minha idade com quem discorda
Com quem me dá pouca bola

Mas se tempo e espaço são de certa forma a mesma coisa
E se a vida é escola
Que mal há em se saber

Atemporal

Eu não sei como não o ser
E eu queria ter a capacidade afinal
De saber esquecer

Mas se for o caso
Eu caio fora de vez
E as coisas que ninguém fala que fez
Viram as coisas que só eu fiz

Eu espero contudo, que com o tempo
Você esqueça também
Que você conheça alguém
Que você seja feliz

Drigo

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Um semi-tom (ou menos)

Como música
Uma nota clama por outra
E depois
Por outra mais

E
Quando essas notas são menos
Prováveis
É quando eu gosto mais

Tipo,
Você batendo a minha porta
Às 4 da manhã

E demora sim uma vida ou duas
Para que se compreenda
Que não se precisa de comando ou direção
Quando se segue o chamado da natureza
Quando se escuta o coração

Mesmo que ele exija um bocado de tristeza
E demande
Andar na contramão

O chamado pede sim
Por um pecado ou dois
E por
Revolução

E pede por uma mente que transite livremente
Em qualquer dimensão
Afinal

Qualquer mente muito consciente facilmente entra num oceano de loucura e gozação
Por vinte e poucos reais
Mas os caminhos reais
Só trilha quem lida
Com tempo e forma de forma criativa

Quem vive a favor da vida
Ativando vida,
Por combustão e
Explosão

Drigo

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Pesadelo

Meus demônios juntam-se a mim
E agora que chego perto do fim
Aceleram meus sentidos
Chegam calados
Abraçando meus pecados
Estão ao meu lado
A dizer

Logo tudo acabará

Ao passo que eu percebo
A névoa que a morte prenuncia
Ao raiar de um dia
Que não durará

Num último ato de desespero
Eu vôo alto, me esmero
Tentando não pousar
E fico ali pairando

Sobre as nuvens
Onde o bem estar ainda é
Onde possa esquecer
Onde possa ter fé

Mais sei, contudo
Que tudo um dia cai ninguém paira pra sempre
Que não se vive impunemente
E que crimes perfeitos não existem

Nem os que cometemos
Nem os que cometem com a gente
O universo não mente

Meus demônios são reais
Meus amores são jamais
E a morte é por demais

Iminente e sagaz

Drigo

terça-feira, 22 de abril de 2008

Sobre os Anjos, A Vida e a Cocaína


Um anjo me visita na cama
Às 5 horas da manhã
O que dizer a um anjo?

“Meu anjo eu tenho febre e eu estou
um pouco excitado e desordenado
Eu Não tenho para onde ir
E preciso Dormir

Para que eu possa então acordar

E seguir meu caminho

Meu anjo eu estou em pedaços
Cocaina e Vinho
Virado
E revirado

Numa semana insone e não há nada de bom que emane
Nesta situação
E meu anjo se há um sentido
Lembre-se que eu sempre acabo perdendo
A direção

E é assim que eu
Reviro um verso
Ao inverso e faço dele ainda
Um verso perfeito
Um verso que possa ser lido
Por qualquer um
De qualquer jeito

E que não reflita certeza alguma
Mas tão somente certa tristeza
Que emana de mim que de tão certamente triste
Emano uma triste beleza

E acabo sendo assim exaltado por ser tão
Fragmentado

Exaltam-me a segregação!

Sordidamente
Assim como exaltam meus amigos
De outra dimensão

É certo que são inofensivos
Não são nocivos
Como os inimigos que navegam por perto

A estes eu digo:
Esqueçam-me por certo!
Digo, porque a inimigo não se pede

Deixa-se que lhe saibam sede de uma beleza
Que não enxergam em si

Mas meu anjo,
Entre os amigos mortos e os inimigos vivos
Prefiro os vivos
Com quem interajo

Meu espírito é imediato
E o ato com quem já morreu
Não me atrai

Meu anjo,
Deixem-me ser vivo e andar com os vivos
Com seus corpos e almas e com os seus motivos
Prefiro assim

E prefiro sim a vida à posteridade
Por piores que sejam as dores em dias que detesto
A idade me faz querer viver com os melhores
Já que morrerei como o resto

Prefiro ainda doer com ardor
A andar atrás do dinheiro que não saberia sequer
Onde pôr

Eu que não encontro o amor
Não mais me iludo
Por um prêmio que não é meu ou
Por quem neste mundo
Como eu já se perdeu

Sabemos nós
Que há algo de ingrato num desejo concedido
E que por isso todo amor seja
Talvez por essência
Mal resolvido

E ainda que me emocione e por vezes
Até chore

Eu no geral aborreço
E sou aborrecido

E me admiram eu sei
Por ser um pouco de tudo
E um muito de nada

Admiram-me pelo que não sou e por acharem que sei sobre o mundo
O que na verdade não sei

Ou talvez,
Por ter o corpo aberto

Por ter a alma alerta
E por saber ser correto na hora errada
E errado

Na hora mais certa

Drigo

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Sobre o Galo, a Terceira Idade e o Odiar

O canto do galo invade novamente o meu sono e atua em meu sonho afastando os elementos de seu lugar mais natural. E, embora eu saiba que o galo canta por instinto, e não age contra a mim, a ordem jurídica e política ou moral - acordo mal.

O pobre galo não é mau, nem é nada. Ele não cria nem destrói sociedades, ele não ameaça nem oferece salvação. Ave burra e sem requinte que não se lembra do momento anterior nem planeja o momento seguinte.

Meu vizinho, sim - ao alto de seus oitenta e tantos anos, possui a faculdade de lembrar e planejar. Ele é presumidamente uma estrutura organizacional superior ao galo, que, embora envelhecida e enrijecida por uma vida de desamor, é sem dúvida capaz de calcular o peso da dor.

E é capaz inclusive de pensar filosoficamente, sendo, portanto, embora um tanto decadente, capaz de criar e fazer o bem. Mas o velho, que já não prestava quando era neném, escolheu ser daqueles velhos capazes de fazer um inferno da vida da gente.

Meu vizinho que não presta embora pudesse prestar não goza daquilo que terceira vida, a vida mística e religiosa lhe permitiria gozar. Ao alto de seus oitenta e tantos anos, quando a vida se esmera em distingui-lo do simplesmente humano, ele vive ao contrário da vida.

Livre dos afetos e das paixões, esse monte de carne e ossos não busca a sublimação, desconhece o que João chamou de o segundo espírito, e com um galo no quintal, projeta a mim todo o mal, por ser mau ou por talião – não contra a mim, que de antemão nada o fiz, mas contra o mundo que, vai saber...

Só me resta, contudo crer que ele pensa ser eu sujeito de alguma ofensa. E que a sua vida de desamor e outra doença qualquer que não me diz respeito, dá-lhe o direito de roubar-me o sono por meio de um galo idiota. Eu me calo a refletir, tendo o sono perdido, sobre o que o faz pensar que deve um suposto ofensor sofrer o mesmo mal que ao ofendido imputa.

Mas calma aí! Jamais gritei ao ouvido deste filho da puta!

A mim resta então viver neste acordar desesperado e me por a escrever para não arder em raiva, como numa forma de oração. Eu jamais terei o velho por irmão - este engenho improdutivo desumano. Talvez lhe reste pouca vida, espero que menos de um ano. Mas já que não tenho tempo para odiar, e já que tenho muito tempo para transcender e transigir, deixo a raiva dormir comigo. Assim eu calo e eu espero. Afinal, não fosse o vizinho seria outro o inimigo. E não fosse o galo, seria outro bicho, o caminhão do lixo ou até mesmo o quero-quero.

Drigo

segunda-feira, 17 de março de 2008

Sobre o Esperar III

A esperança se disfarça em
Memórias do que ainda não vivi
Chega e me enfia hoje a faca do futuro na garganta e diz:
-De nada adianta fingir
Que o homem que sou não foi moldado pelo menino que nasci

Ou fingir que os meus planos são destino
Ou que vivi em desatino sem saber onde ia dar
E é, pois então que prefiro dar
A esperança o título
De inimiga mortal que me coloca de joelhos
E me faz implorar por piedade
Desculpar-te de tua maldade
E escutar os conselhos de quem é tão vazio

E a esperança me pariu
Sabendo-me não durar
E sabe ainda que as memórias que hão de vir
Apagar-se-ão
E que será assim definitivamente em vão

Esperar
Enganar a consciência de que
O que sonhei
Fora sempre e para sempre será
Destruído pela conseqüência do fui, pelo que hoje sou e pelo que não serei
Em dias que não sei

Até que o fim derradeiro que me queimará por inteiro
E que não me porá novo jamais
Devolva-me enfim a paz
E nada mais então será dito ou escrito sobre mim

A não ser “aqui jaz o maldito”
Que por tanto esperou
E que em tanto acreditou veementemente
A cada sol nascente

Devia ter tão somente bastado o conforto
Do abraço amigo
O deslumbre com sol poente
Devia ter bastado cerveja na mesa do bar
Devia ter bastado a música

E a ilusão de ter sido desejado
A cada desejar

Drigo

domingo, 2 de março de 2008

Sobre o Esperar II

De certa forma eu espero
Numa esperança que me corta e sangra
Os olhos e me faz arder e me sentir mais
Pesado do que a gravidade do problema

Dado o peso que o sistema
Imputa sobre meus ossos

E os “não-queros” e “não-possos” que eu escuto mesmo quando todos silenciam
Roubam-me a alegria de viver o dia a dia
E me fazem sofrer pelo que sei e o que eu não sei
Até o ponto onde já não sei mais
O que dizer
Ou dizer se esperei a toa

Se a vida é ruim ou se ela é boa

E se você também se sente assim sem saber como se sente
Eu lhe proponho uma proposta mais do que decente

Façamos um pacto
Esqueçamos Deus e o diabo
E façamos seus os meus ouvidos e os meus ombros

E eu te retiro dos escombros que viraram nossas vidas
Pois esperar é acreditar que há saídas entre o céu e o sob o chão

E,

Até que eu te tenhas imersa em compaixão
Eu imergido de antemão te digo mil sins e nenhum não
E eu espero assim me fazer presente nesse mundo
E fazer de cada segundo

Uma nova possibilidade
De uma nova geração

Drigo

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Numa Sexta-Feira

- Eu fui enviado pelos céus
Não se atreva a esquecer** –

Enquanto Jameson sussurrava palavras que ele escutara numa música qualquer do último álbum de sua banda preferida, certo de que essas palavras eram suas e se não fossem,

Poucos conheceriam a banda e muito menos seu último álbum, que não havia sido sequer lançado no Brasil.

E depois, pouca gente presta atenção às letras de música nesta cidade imunda,
Neste fim de sul do mundo

- E eu sou tudo o que você sempre quis.Tudo o que todos os outros caras prometeram.
Desculpe estragar o mistério, mas achei que você devia saber**

Iasmin bebeu num só gole a margarita de morango e pediu outra. Ela não conhecia a banda, ela não estava certa de que as palavras eram de Jameson.

Mas pouco importou, pouco importa.

A quem pertencem as palavras? Ela pensaria fora essa questão.

Mas a questão era a ansiedade que lhe consumira o dia e que agora lhe consumia o cartão de crédito e lhe consumiria a manhã e a tarde seguinte num ciclo vicioso ao qual ela não conseguia escapar.

Por isso ela não resistiu.
Não julgou. Tampouco ignorou.

- A solidão é uma merda. E as minhas inseguranças venceram a minha vontade de lutar.

Iasmin pensou se fora Jameson ou sua mente quem falou desta vez. Prefiriu não se importar.Fechou os olhos e deixou a mão do garoto percorrer por sobre seus ombros e seu coração.

As bocas se uniram em desespero.

Naquela noite, naquele bar, duas bocas solitárias beijaram para não que dois olhos cansados não viessem a chorar.

Drigo

** Ok I Believe You But My Tommy Gun Won’t - Brand New

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Sobre os Galos, as Mães o Ópio e o Absinto

"A minha dor não é a digna e sobre-humana como a dor do pai que perde o filho,
E minha raiva não me consome pelo fato de não consumir-se em ato, mas sim por ser indigna de um filho de bom trato,
Mas confesso se não sei doer à dor do fato, sei doer por compaixão, e se não sei odiar sem culpa, então culpo o meu irmão”

Acordo-me frequentemente em meu sono atordoado ante o conflito que é a minha vida e culpo o galo,
que não tem hora pra cantar,
Uma vez estuprado em meu sono minha ocupação é odiar o galo, que por sua vez me ignora a raiva...
Vil estuprador!
Sou então sede de uma dor com a indignidade daqueles que sofrem por suposição, impotente numa sinuca de bico, O galo fecha o bico, não sofre menos o mundo com esse relato abstrato,
E continua assim a minha aflição

Enquanto dormem o pai, a mãe e o irmão, eu sigo doendo e odiando pelos cômodos da casa,
E a dor física me corta as asas da imaginação, me pondo louco,
Loucura, fruto podre da opressão...!

(Tempo para dar ao poema dramaticidade)(....)

Oh mãe! Guardas de mim o bálsamo que me alivia a dor!
Inocentemente guardas por amor ou pelo instinto
De seres mulher e exigires teu valor?
Eu te valorizo agora me faça um favor,
Transcenda o instinto,
Dá-me o ópio e o absinto!

Mas convenhamos que loucura é ser estuprado por uma ave ou culpar a mãe pelo sono perdido
Isso é desumano e sem sentido, afinal,
Não serão o amor na mulher e o canto no galo um mesmo instinto?
E talvez saibam as mães de fato qual é o fado do filho
E pedir ópio a mãe não é nada natural

Assim o é - para o desumano, que é um louco, só há uma salvação,
Dar-se conta da loucura em contexto completo
Compreender-se incompleto e buscar a humanidade
De modo concreto e como plena vocação

Oh preciosa compreensão que me silencia a alma
Acalma-me a culpa e me faz digno em minha dor
Busco a paz e a paz encontro mesmo enquanto em febre ardo,
Pelo fardo dos que dormem em paz concedida
A noite de sono perdida não é em vão e não deve ser ressentida
Agora sei que embora durmam os outros, essas marcas não são minhas,
Fui roubado de meu sonho por perceber a distorção
Cabe a mim então, que não me enlevo em inocência,
Denunciar ao mundo sua indecência, e fazer-me solução.

(Canta de novo o galo, o sono vem e aborta-se o poema).

Drigo

Sobre o Esperar ( Um Poema Quase Existencialista )

Imortal e imatura esperança
Impertinente ao acreditar, esvaindo-se na descrença.
De volta em loucos sonhos a me assombrar

Como se eu não soubesse que

Enraizadas em cada um de meus ossos
As desilusões de cada antepassado
As dores e os desenganos de
Cada um morto Costa, de cada enterrado Godoy

E que saibas, portanto e agora
Porque me sinto são em noites onde dói-me a alma
Desesperado em dias de calma e perdido ante um sorriso verdadeiro

E que saibas, portanto e agora,
Porque a cada meio que te aproximas

Eu movo-me inteiro

Faz-se já tempo que sei que os felizes se perdem em devaneio

Pois que seja então nosso destino esse jogo de esconde-esconde

Mas não me entendas mal, eu me vejo confuso ainda assim onde
me encontras tão vulnerável

A pensar...
O que é a vida senão ilusão
E não será a esperança por conclusão
Minha única conexão para com esse mundo?

É quando então me vês a bradar e a bramir entusiasmado:

Que sirva-nos a todos a tal da esperança!
E que nos permita ela mover, alcançar e atingir!
Porém,

Atingir o que, afinal?

Não será melhor viver na angústia
E andar no andar da humanidade?
Até que chegue a morte em toda sua crueldade
A dizer
Por tempo demais esperastes

Agora aquietas o coração e descanses
Estivestes certo na medida em que errastes!
E assim é a matemática da arrogância
Simples, mas incompleta,
Não satisfaz na medida em que é certa nesta ânsia por compreender

Mas, a cada pulsar do coração, a vida pára num instante de silêncio e me diz
Descanses a lógica nesta morte em brevidade
E tu, alma racional, aceites o sublime como por sorte e por verdade

Sabendo que.

No decorrer do seu tempo e a cada momento
Tivestes razão
Não mais que a metade das vezes,
Não mais que cinqüenta por cento


Drigo

sábado, 7 de julho de 2007

Gauche na Vida ( Para Drummond )

Meus olhos de oceano
Anseiam pelo dia
Em que o sol poente levara consigo
Cada lagrima contida,
Ardida, pois, e sofrida sim
Estão todas elas perpetuadas
Todas em mim

E a lua
Rasgará a bruma fugaz
Que me cobre alma antiga
Minha alma audaz
Mal compreendida, minha moral perdida
Já não importa mais...

E eu seguirei então,
Tal como Drummond,
gauche na vida.

Em desesperada busca por inocência
Eu superarei a decadência
Da riqueza material
Voltarei a mim, afinal

E, Entre cada sonho e cada manha insistente
Em delírio, persistente
Canso, danço e liberto a mente

E a cada vez que sou colírio
Perdão imploro
A olhos aos quais fui cloro ardente

Mas não duvide,
Sonharei ainda, em aventuras ciganas
Por possíveis dias de felicidade
E, Por possíveis fusões humanas
Na cama, no quarto...

E enquanto a cidade adormece e reclama
Sua própria identidade
Ciente eu sigo,
No mundo que conta dólar por dólar
E furacão por categoria
Eu crio o mundo inbetween

Meu mundo depende de mim
De minha fantasia
Alegoria por alegoria
Minuto a hora
Hora a dia
Sabendo que Deus é acima de tudo
Uma grande ironia

E o futuro da cultura reside
No sol nascente, no sarcasmo e no não saber
E a quem me faz curioso ofereço amizade
E a quem me faz parecer
Pouco, demais, nobre ou vil
Ou ainda ingênuo e indiferente.

Eu lhe enganei...
Primeiro de Abril
Sinto muito, mas meu tempo é acima de tudo
Preciosidade

Por quanto minh’alma ardente clama
Pelo corpo e pelo que o corpo chama
Arde
Pressente
Conclama

E eu vou a fundo,
acordo cedo
E durmo tarde
Não minto, eu tenho medo
Mas não sou sacana,
nem sou covarde

E a cada segundo iminente
O passado vem à tona como a por fim a tudo
Para cada Fiorento morreu um Jose
E a cada Joana um Rodrigo
A cada Mariah uma Duda

Assim é a matemática da vida
A cada alegria uma alegria ferida
Uma dor aguda, uma dor sentida

Mas a cada um mais, um dois e afinal,
Sigo sozinho
Mas solitário jamais
A guerra entre o bem e o mal não é minha
Não mais,

E se deus e o diabo brigam
Que me deixem em paz....

Escolho a melancolia
Pelos anos sessenta onde nem era vivo
E pelos setenta e pelos oitenta e pela inocência perdida em noventa e nove
O mundo move
E entre o bem e o mal, o senão
E entre o quadrado e o circulo, a espiral
O que parece obvio ao mundo automático
Ao mundo tolo, ao mundo industrial

Sobrenaturalmente padece ao abraço amigo
Meus olhos de oceano refletem o que carregam consigo
Entre o côncavo e o convexo, o que chamam Rodrigo
Vive,
Entre o verde e o azul profundo
As cores possíveis e as cores impossíveis do mundo
E as nuances sonhadas

Ah as nuances que eu vejo e quase ninguém vê,
Me fazem sobrevivente,

E o mundo que almejo
E que nesse momento te faz sorrir
É o mundo que mereces
O mundo que mereço
Pois que saibamos então
Que entre preces e preços
E entre o mundo dos anjos e
O mundo atroz

Vale escolher ficarmos bem
Valemos nós
Entre eles, elas, depois e agora e entre um e dois, três
Valemos mais sendo um mais um e mais um talvez

Minuto a hora,
Hora a dia
Dia a mês
E se somares doze, um ano
E se somares lagrima a lagrima contida

Um oceano
Trinta e dois anos,
Uma vida.

Drigo

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Sobre a Serenidade e o Querer ( Para Whitman )

Minha alma descansará esta noite
Ah como!
Anseio por sentir
Desejo descansar esta mente incansável
Desejo que a natureza me guie nos caminhos desta vida

E se ainda tenho esperanças
É, pois,
Não compartilho com os desejos desse mundo
Com o mundo dos homens e grupos de homens
Com o mundo dos livros e das leis e da linguagem

Meus padrões são os do oceano e da terra e são os padrões da atmosfera
Eu sou o rio que se mantém puro em seu curso
Sem saber
Que eu sou o resultados de resultados
Do clima e da gravidade
E que sou tormento tanto quanto
Serenidade

Trazendo vida aos campos que me cercam
Eu trago vida em mim
Vida em movimento, a expressão da vida

Eu sou a vida na forma de Homem
E eu sou vida feita à imagem da essência de toda vida
Ao passo que eu escolho abraçar a vida e vida criar

Não espero pela cura de meu corpo para fazê-lo
Visto que sou mais que minhas doenças e sou mais que minha saúde
Eu sou o Homem que escolhe o que é bom e o que é puro
E eu sou o Homem que não ensina e sequer é ensinado

E mesmo que meus pulmões mal respirem
E que meus olhos ardam
E que minha pele sufoque
Ainda assim o ar
Ainda assim a luz
Ainda assim a água

Anseiam todos por servir
O propósito da vida
O propósito de mim

Outros homens virão e julgarão
Outros homens virão a oferecer
Mas eu sou o Homem cujo coração silencia todas as vozes
E eu sou Homem que renega tudo o que não vem do coração

Enquanto as conversas poluem o ar
Eu sou a essência das folhas e das flores e do mato
E sim, eu compreendo de fato os meus erros.
E aceito a condição da cada um deles

Meus erros não me assombram e minha fraqueza não é mais de quem eu sou
E eu não sou daqueles que se esconde até sentir-se forte e sábio
E tampouco finjo ser forte ou sábio
Eu mostro a minha condição ao mundo e espero mais do que um simples concordar,
Um balançar de cabeças...

Eu espero uma mão amiga que me afague os cabelos
Um amigo que me alivie com palavras gentis
Mas ainda assim, não vou trocar carinho qualquer pela domesticação de meu amor

Sequer trocarei palavras gentis, mesmo ditas por bocas muito honestas por menos do que
Sinfonias de gratidão

Drigo

Cafeínado, 3pm

Eu bebo copos e copos de café em salas ar condicionadas
Em tardes estúpidas e ensolaradas aguardando ansiosamente por
Temporais anunciados no céu
E então devidamente cafeinado eu me proponho a escrever
Escrever para poder respirar
Por não saber chorar

E assim passam-se os dias e a cada dia um pouco melhor
Talvez
Eu sofro calado, um pouco morto um pouco derrotado,
Mas assumir jamais
Bandeira branca eu quero paz! – quanta balela
A paz não existe enquanto existe dentro tanta guerra

E quem sou senão um corpo que resiste

Como limite ao turbilhão interior
Hormônios? Seqüelas? Ardor?

O que é o amor?
Existe o amor?

E os planos
Ah meus planos
Pai de meus desenganos
Malditos planos

Que me deixam perdido
Nessa suposição de que existe o futuro e o pior que o futuro
Só o futuro do pretérito

Seria, Teria, Foderia, Iria, Gozaria.
E eu que não agüento o momento
Acabo não sendo
Não tendo
Não fodendo
Não indo e não gozando a não ser sobre gente que não vale a pena

Tamanha frustração que me coloca a nocaute
Rouba-me a capacidade criativa
Pondo-me inútil, impotente e carente ante a vida
Em tanta conjugação sofrida

Eu quase me submeto ou quase não
E se sim, não por muito tempo
Pois para reinar sobre o tempo
Basta saber-se atemporal

E então mesmo estando assim tão mal
Eu acho uma saída
No sitio do pica-pau de minha vida
Pirlimpimpim e eis aqui

A minha ressurreição
Como um fênix ponho-me novo
Um pouco ainda mais abstrato
Mas não serei eu assim
Mais apto...

Pela lei da sobrevivência
Neste mundo cada vez mais sem sentido

A manter-me são?

Drigo

Sobre o Norte e o Sul

Grandes impávidos colossos
Desilusões austrais e boreais
Deixemo-nos ir, mas...

Ir, vir, ficar e deixar.
São tantas desculpas para o agora e o aqui

Onde tudo virou lembrança
De onde o asfalto não oprime quase tudo

E eu, distante não sinto, nem sou sentido.

De tanto ver, sou cego.
De tanto dizer sou mudo
De tanto oprimir, oprimido.

Perdido em mim
Entre duas terras e tanta gente indiferente

E o diferente e o igual são sombra e luz
Ao norte e ao sul, num código binário.
A ilusão de que sol desce ao contrario nos dois extremos dessa cruz

Perpetua o mito
Perpetuando a situação

E se ao norte para-se o tempo
E viver é fingir de viver
Ao sul o tempo pára
E clama-se o sentir, sem perceber.

Sem perceber que a gente sente, sente!

Mas reclama do menino do sinal
Desmentindo a beleza nacional
Inocentemente entre o ideal e o horror, ao meio.
Gritando aos olhos: o Brasil é feio!

Mas quem é belo, afinal?

A diferença e a indiferença relativa, - há sempre alguém na contramão.
Na guerra que mata silenciosamente por azeite e religião
E na tragédia do menino em exclusão social

E se ao norte a ordem urbana faz a feiúra menos obvia que nossa feiúra marginal
E a ostentação arquitetônica impressiona a alma arredia
A ostentação do carnaval ilude no sul a barriga vazia

No final seguimos, engolindo a seco ou chorando um pranto.
Formigas sob um mesmo céu, num mesmo manto e véu de hipocrisia.

Culpando o imperialismo, a ordem mundial.
Culpando a falta de caráter humano como pecado capital

Culpando o menino do sinal…

Culpando por um segundo, pois o sinal abriu.
E o menino imundo não ruiu seu mundo, nem o meu.
Nem mundo algum

Sumiu perdido no momento.
Enquanto as oito em ponto, a novela berra na teve.
Ensurdecendo-nos do menino o lamento

Ao passo que ao norte, há mesma hora – a previsão do tempo importa mais que o menino em Bagdá.

“Terra desenvolvida, terra em desenvolvimento”.

Onde foram dormir os meninos?

Eu berro longe e logo berrarei perto ao seu ouvido
Pois vim ver o que não via com o coração atrofiado e corrompido

Pela educação suja pelo militarismo na America Latina
(Obrigado colégio São Bento e obrigado aos covardes de botina).

Meus respeitos aos padres e bispos que disseram não

Meus respeitos a Teoria da Libertação e a tudo o que liberta

Vim, cego e surdo achando aqui ser melhor.
Mas cá estou para dizer aos cegos e mostrar aos surdos

Com a mente aberta e a boca aberta eu digo:

-É ruim, talvez pior, mas nem tão diferente.

Porem dói agora perceber o menino e minha gente.

Andando com medo quando anoitece
Deixando de sonhar quando anoitece

Drigo

LAX - Guarulhos ( o fim de um sonho americano )

No ventre do planeta o fogo queima
calado e sempre e na superfície,
a gente surda com olhos que só olham para frente,
e corações que sentem para trás,
vive em desatino
e desatino é seu destino
num complexo capital de superioridade
em uma busca efêmera por felicidade
caminham em manhãs que amanhecem em ansiedade
dirigem carros por cidades e voam em aviões apertados
Buscando sentido
Respirando o ar rarefeito
E do alto se vê as luzes do artifício
E o horizonte desafiando o raciocínio em pores do sol
Com seus drásticos efeitos
No centro o fogo queima
Por dentro o fogo queima
Em volta tudo é silêncio
como num vácuo entre
O sublime e o banal

Drigo

De Onde Nascem os Bons Pensamentos

De onde partem os bons pensamentos
As cores e as dores se confundem
E os ponteiros não marcam sem que as estações mudem
De onde se faz a música
Nascem os bons pensamentos
Lá valem os momentos
Vale a vida lúdica
Não há separação onde brotam os bons pensamentos
Floresce-se em união com o tempo
O homem unido ao pensamento
Num momento
Como música
Em sintonia única
Sentimento e forma
Dão norma que se esvai no momento seguinte

Num constante esquecimento
Retorna o artista facilmente a onde nascem os pensamentos

Drigo

Livre

Como Fênix eu vou ressurgir
Destas cinzas eletrônicas
Como a verdade rompe a noite com o sol

E eu vou então viajar de costa a costa e depois
De Norte a Sul
Através das cidades e florestas
Por trilhas e estradas
Parando para ler poemas
Assistir pores do sol
E para fazer amor com as estrelas
Com o tempo e com as pessoas

E eu vou sentir
O ritmo do meu coração
Vou viajar sem dinheiro
Duro em esquecimento brilhando
Em salas escuras no fundo de botecos

Os dias passando
E as pessoas
Vindo ao meu encontro
Eu vou contar estórias
Algumas verdadeiras
A novos amigos bêbados
E vou escutar estórias
Meio bêbado
Meio ouvindo
Sentindo-me um estranho

Para sempre estranho
Exceto para as árvores e céus e para o vento
Vivendo
Conforme a intenção da natureza
Caminhando em direção ao horizonte

Por caminhos desconhecidos
Esquecendo-me de tudo o que não me é útil
Na cultura
De tudo o que é vulgar e mesquinho

Tudo o que mata

E vou viver como escrevo
Apaixonadamente
Como uma promessa de liberdade
Por que assim como minhas palavras

Eu carrego comigo
A semente da transformação

Drigo

Metanfetamina, 6pm


A noite cai

Imóvel eu presencio o movimento

Dos pássaros que voam baixo

Das pessoas que falam e andam e abrem portas

Das cores que perdem o brilho e ganham mistério

Eu ouço o telefone, as vozes, os carros

Imóvel eu sinto o movimento

Ao redor e dentro

Dentro

O medo espia e eu acendo a luz

A dor brota e eu piso e esmago

Eu calo, o corpo berra

Dentro, uma guerra

Corpos e anticorpos

Pensamentos e sentimentos

Ao redor,

Berra a cidade, incoerente

Pisando, esmagando

E sob a nevoa densa da mediocridade

Acende a luz e se entorpece

Escondendo as estrelas

Escondendo-se de si

Faz uma prece

E entre o bem e o mal

Segue indiferente

Entre o bem e o mal

Esquece-se o essencial

E segue a cidade, doente

E ante meus olhos perpetua-se esse espetáculo de indecência

Imóvel, aparentemente

Eu sou turbilhão, eu sou um universo

Mas distante e opaco, perdido em devaneios

Sou pedra a olhos alheios

E as pessoas deitam e calam e fecham portas

E com certa dose de medicamento

Adormecem toda a culpa e ressentimento

A mim, elas sim - parecem mortas

Livres de suas dores e de seus amores

Somem na escuridão das cores

E parece que a cidade,inerte, me dispensa

Dorme Perdida em sonhos que não são meus

E assim noite abriga as dores do mundo

Mas o conforto acomoda a ilusão

Que toma consigo minhas vis defesas

E abre as travas da prisão

Me vejo vulnerável, e

O medo vem forte e rápido

Alimentando a dor que cresce e sufoca

A febre queima e a vida implora

De mim uma atitude

Meu coração bate alto e rompe o silencio

Acorda meus instintos

As mãos movem

Fieis

Respondem ao clamor da vida

Eu sou então movimento

E explodindo sobre a tela

Sem contenção

Escrevo sobre o que sei e o que não sei

Eu sou a febre do mundo

Na escuridão do silencio que brota e eu esmago

E no turbilhão da dor que some em luz

Eu sou pai filho e o espírito santo

E a mãe em pranto ao pé da cruz

Drigo

Convulsão

E essa guerra interior entre a consciência e o desejar
Define minha vida num constante desequilíbrio de forças,
E o não saber-me mais do que o que o espelho mostra
Faz pender-me ora a um lado
Ora a outro
E faz-me viver vertiginosamente

Em arritmia

Mas eu espero que o tempo faça desta convulsão de notas
Uma mais que perfeita melodia

E eu espero que valha então a pena
Não calar-me e insistir
Em esperar e acreditar

Só assim eu posso matar a dúvida
Que insiste em me convencer em pensar e a viver
Ao contrário da vida

Drigo

terça-feira, 3 de julho de 2007

Sobre a Noite, a Poesia e o Bar

E eu fui juntando os conceitos
E fui tentando incorpora-los
De uma forma um pouco exata
A meu mundo abstrato
Sem romper com meu compromisso
Em ser suficientemente abstrato
Para que não se comprometa e emoção exata
Pela exatidão do fato

E eu fui diluindo
Tanta exatidão no papel
Com as cores na minha cabeça
Refletindo as cores do céu
Eu cheguei a quatro páginas e um terço
Numa fonte pequena
Fazendo sentido
Numa aquarela de cores

E assim pelo fim do terço final
Da quarta página
Fui caminhar pela noite
Poeta e sábio
Sob a lua
Para o bar

Num lar que não era meu
Encontrei conversas mundanas
Sensível que sou
Sofri pessoas sacanas
Bebi e sorri uma inocência
Da qual quase me envergonho

E assim a noite foi me traindo
A cada gole eu fui me traindo
E fui diluindo
As cores de minha cabeça
Numa escuridão tropeça
Numa fonte pequena e bêbada
De pouca sabedoria

E fui então rompendo
Com meus compromissos
Tornando-me concreto e mundano
Num mundo abstrato e cigano
Tornando-me de fino trato
Para com quem não merecia

Ao raiar do dia
A agonia da consciência que berra
Sofrendo o sol queimando-me a mente
Do fundo de minha alma eu imploro por forças
Que não me deixem cair por terra

Eu olho para o sol com os olhos ardentes
E garanto as forças que me fizeram refém
Que o mundo em que vivo é o mundo do bem
E que eu perco a batalha,

Mas não perco a guerra

Drigo